O primeiro Congresso Ibérico de Gestão e Planeamento da Água realizado em Saragoça em 1998, foi um marco em Espanha e Portugal: um verdadeiro Fórum para debate transversal e interdisciplinar, envolvendo professores e investigadores, estudantes universitários, técnicos das administrações públicas, representantes de coletivos sociais e cidadãos. Sob o lema "O debate da água a partir da Universidade: Por uma nova cultura da água" e com o apoio dos Reitores de mais de sessenta universidades de Espanha e de Portugal, centenas de participantes questionaram o paradigma hidráulico dominante e defenderam uma nova forma inclusiva e sustentável de gerir os nossos recursos hídricos.

Além disso, o primeiro Congresso Ibérico representou o culminar dum movimento de resistência à destruição dos ecossistemas aquáticos ibéricos e à perda de referências culturais e ambientais relacionadas com os seus rios, no âmbito do chamado paradigma hidráulico. A Fundação Nova Cultura da Água (FNCA) nasceu naquela época em torno do movimento académico, como resultado da reflexão e apoio de cidadãos aos movimentos contrários aos grandes transvases e infraestruturas hidráulicas, alertados pelos potenciais impactos negativos nas Bacias Hidrográficas dos rios ibéricos. A partir desta data, a FNCA assumiu a responsabilidade por organizar um Congresso a cada dois anos, em Espanha ou Portugal, dando assim origem a uma tradição de troca de ideias e experiências entre especialistas de cada uma das áreas relacionadas com a gestão da água: sociocultural, económica, tecnológica e ambiental.

A Nova Cultura da Água atinge duas décadas de reflexão sobre as alternativas às políticas de água dominantes nos dois países ibéricos, criando o seu próprio âmbito de intervenção a partir do reconhecimento da necessidade de uma abordagem que integre os valores que defende na gestão da água. O objetivo sempre foi o de melhorar a relação das comunidades com os ecossistemas aquáticos, facilitando uma governabilidade mais democrática e uma utilização mais equitativa deste elemento vital, que é a água.

Os temas abordados nestes vinte anos de Congressos Ibéricos incorporaram tanto os assuntos que estavam dirigidos, em cada momento, para o foco social e para o debate político em torno da água, como para a apresentação de ideias e propostas construtivas para transformar consciências e encontrar novas soluções, com especial ênfase no contexto Ibérico e Europeu em que o nosso trabalho se realiza. Este contexto está hoje marcado pelas consequências da crise política e económica e pela evidência, cada vez mais inegável, do desequilíbrio dos sistemas naturais que sustentam a vida no planeta Terra.

As comunidades ibéricas em defesa de uma Nova Cultura da Água foram mobilizadas ao longo destes anos para fazerem valer a defesa do nosso património comum. Assim, têm enfrentado diferentes pressões sobre os ecossistemas aquáticos - os grandes transvases que promovem consumos insustentáveis em regiões com forte escassez hídrica; a construção de grandes barragens para satisfazer novas utilizações, com a consequente ameaça para a conservação do património natural e cultural associado com os rios; a diminuição dos regimes de caudais ecológicos; a sobre-exploração dos recursos; ou os episódios de contaminação das águas superficiais e subterrâneas-, exigindo uma nova forma de fazer a política da água de modo a ter em consideração as perspetivas e interesses de todas as partes interessadas. Durante duas décadas, a FNCA tem ajudado a promover estes debates, apoiando-se no quadro jurídico existente para promover alternativas ecológica, ambiental e socialmente mais sustentáveis. Neste sentido, o processo de debate, aprovação e implementação da Diretiva Quadro da Água tem sido um fio condutor das nossas reflexões e propostas.

O X Congresso Ibérico de Gestão e Planeamento da Água vai ser realizado em 2018 em Coimbra, Portugal, vinte anos após o primeiro Congresso de Saragoça. Por parte da FNCA queremos celebrar este Congresso de maneira especial, congregando a comunidade dos seus fundadores e amigos e todos aqueles que, em Portugal e Espanha, procuram debater os problemas da água, a fim de transformar as políticas e práticas para garantir a continuidade dos ecossistemas aquáticos e os fluxos de vida a eles associados.

Nesta décima edição queremos fazer um balanço destes vinte anos de troca continuada de ideias e experiências, e projetar esta continuidade em soluções que permitam defender a integridade ecológica e social do meio aquático, dos seus territórios associados e das comunidades que os disfrutam.